A política colombiana foi historicamente marcada pela ligação entre a esquerda, grupos guerrilheiros armados e a violência, conforme análise do cientista político Bruno Soller. Essa associação se desenvolveu ao longo do século passado e permanece um fator no cenário eleitoral do país.
A esquerda colombiana não alcançou força partidária, com movimentos guerrilheiros como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) ocupando espaço. Esses grupos passaram a defender a tomada do poder pela luta armada, enquanto o Estado colombiano enfrentava simultaneamente o avanço dos cartéis do narcotráfico, afirmou Soller.
Ligação com o Narcotráfico
Um ponto de inflexão ocorreu quando os movimentos guerrilheiros também ocuparam o espaço econômico deixado pelos cartéis. Segundo Soller, as Farc assumiram o controle do narcotráfico com o declínio dos cartéis na Colômbia. A partir desse momento, a guerrilha passou a ser associada ao crime organizado e ao narcotráfico, criando uma barreira histórica para o crescimento eleitoral da esquerda institucional.
Essa relação se intensificou durante os anos 1990 e 2000, período em que a violência dos cartéis e das guerrilhas atingiu níveis extremos. O combate aos grupos armados transformou a segurança pública no principal eixo da política colombiana e possibilitou a ascensão do ex-presidente Álvaro Uribe.
Uribe chegou ao poder em 2002 com a promessa de enfrentamento às Farc. Seu governo foi marcado por repressão intensa às guerrilhas e fortalecimento militar do Estado. A direita colombiana construiu uma narrativa de enfrentamento à esquerda associada às guerrilhas, que permaneceu presente no imaginário colombiano mesmo após acordos de paz e a entrada de antigos movimentos armados na política institucional, segundo Soller.
Acordo de Paz e Ascensão da Esquerda
Uma alteração ocorreu em 2016, quando o então presidente Juan Manuel Santos assinou o acordo de paz com as Farc. O tratado encerrou décadas de conflito armado e permitiu que integrantes da guerrilha ingressassem formalmente na disputa política.
Esse processo possibilitou que a esquerda conquistasse espaço institucional no país, culminando na eleição de Gustavo Petro em 2022. Petro, que integrou o grupo guerrilheiro M-19 durante a juventude, tornou-se o primeiro presidente de esquerda da história colombiana após o desgaste do governo conservador de Iván Duque e a superação de uma barreira política histórica.
Cenário Atual e Debate Eleitoral
A associação entre esquerda e violência nunca desapareceu, e a eleição presidencial atual recolocou esse debate no centro da disputa. Dissidências das Farc registraram fortalecimento, ataques políticos se intensificaram e a violência urbana cresceu em várias regiões do país.
Esses fatores, segundo Soller, explicam o fortalecimento recente da direita e o crescimento de candidaturas que defendem endurecimento contra grupos armados e organizações criminosas. O tema da segurança pública reorganizou o voto da direita. A eleição colombiana representa uma avaliação política, segundo Soller, sobre a experiência da esquerda no poder e os limites da política de pacificação do presidente Petro.
A guerrilha, o narcotráfico e a violência permanecem como elementos centrais para a compreensão da política colombiana.


