O mercado financeiro americano demonstrou resiliência diante das ameaças do ex-presidente Donald Trump à autonomia do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. Apesar das crescentes tensões, as principais bolsas de valores do país encerraram o dia em alta.
O presidente do Fed, Jerome Powell, informou que o Departamento de Justiça notificou o banco com intimações de um grande júri, sob ameaça de indiciamento criminal, em resposta a seu depoimento ao Senado. Powell argumenta que a investigação visa minar a capacidade do Fed de definir a política monetária baseada em dados econômicos, e não em pressões políticas.
Reação do mercado
Analistas do mercado previam uma reação negativa, com receios de que investidores globais perdessem a confiança nas instituições americanas, desencadeando uma “fuga de ativos de risco”. No entanto, o S&P 500, o Dow Jones e o Nasdaq registraram ganhos. Essa ausência de reação negativa repete um padrão observado em incidentes anteriores envolvendo Trump e o Fed.
A ex-presidente do Fed e ex-secretária do Tesouro, Janet Yellen, alertou os investidores a “ficarem atentos”, mas a preocupação não se traduziu em vendas significativas. Além disso, a Justiça bloqueou tentativas anteriores de interferir na composição do Fed, e senadores republicanos já sinalizaram que podem barrar nomeações para o banco central até que a investigação seja resolvida.
Pressão política e impactos históricos
O professor de finanças Yosef Bonaparte, da Universidade do Colorado, desenvolveu o Índice de Pressão Presidente-Fed (FPPI) para medir a pressão política sobre o Fed e seus efeitos nos mercados. Seus estudos indicam que as oscilações de preços aumentam em momentos de pressão, refletindo incerteza, mas nem sempre queda. Em média, as ações sobem levemente quando a pressão sobre o banco central aumenta, com ganhos maiores em empresas menores.
A lógica por trás disso é que a pressão política frequentemente busca estimular a economia, sinalizando políticas monetárias mais frouxas, o que favorece o preço das ações. O FPPI registrou picos significativos em momentos de crise, como a recessão de 2000 e a crise de 2008. Os maiores picos foram durante o governo Trump, que aplicou quase o dobro da pressão sobre o Fed em comparação com Biden e sete vezes mais que Reagan, de acordo com dados até julho de 2025.
Históricos de outros presidentes demonstram que a interferência política no Fed não é algo novo. Lyndon Johnson e Richard Nixon também pressionaram o banco central em suas gestões. Apesar disso, o estudo não endossa um Fed submisso, pois a pressão política pode gerar incerteza econômica e prejudicar a credibilidade a longo prazo. Um exemplo extremo é a Turquia, onde a inflação atingiu 85% em outubro de 2022 sob o governo Erdogan.
Apesar das tensões políticas, o mercado de ações americano demonstra, até o momento, resiliência frente às ameaças à autonomia do Fed.
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