A XP Investimentos realizou uma transmissão ao vivo no último domingo (1) para analisar os impactos do ataque dos Estados Unidos ao Irã, ocorrido no fim de semana. Fernando Ferreira (estrategista-chefe e head do Research da XP), Maria Irene Jordão (estrategista global) e Régis Cardoso (head de Petróleo e Gás) participaram da conversa.
A operação militar, que intensificou tensões no Oriente Médio, pode gerar volatilidade nos mercados globais, com efeitos distintos a curto e longo prazo, de acordo com a análise da XP.
Impactos iniciais nos mercados
Historicamente, choques geopolíticos costumam gerar aversão a risco no início, mas com impacto limitado em janelas de três a seis meses. O valor das ações é definido pelos lucros das empresas, segundo Fernando Ferreira.
O Irã possui produção relevante de petróleo, e o estreito de Ormuz concentra cerca de 20% da oferta global e 25% do comércio marítimo de petróleo. Qualquer risco ao trânsito na região pode impactar os preços.
As bolsas globais já demonstravam cautela e valuations esticados, o que pode ampliar correções em caso de choque. Um acordo de desnuclearização e mudança de regime no Irã, que resulte em maior estabilidade no futuro, poderia ser positivo para ativos de risco no médio prazo.
Analistas esperam que as primeiras negociações de dólar e outras moedas na Ásia já reflitam a volatilidade que poderá marcar a sessão desta segunda-feira.
Setores e ativos brasileiros podem ser afetados
A produção líquida de petróleo, o superávit comercial e as reservas elevadas oferecem suporte ao Brasil, mas a aversão ao risco pode impactar o Ibovespa e o câmbio.
O Bitcoin apresentou queda após os ataques e, em seguida, recuperou-se. Algumas bolsas do Oriente Médio, que abriram em queda de 4%–5%, fecharam com perdas menores, em torno de 1%–2%.
A plataforma Polymarket indica que dois terços dos apostadores projetam resolução do conflito em março e mais de 70% até o fim de abril.
Petróleo: risco de oferta e instabilidade
O mercado de petróleo pode entrar em instabilidade, segundo Régis Cardoso. Mudanças políticas e militares podem gerar desfechos variados.
A produção do Irã é de cerca de 3,5 milhões de barris/dia, quase 3,5% da oferta global, próximo da capacidade ociosa da Opep. O risco central é o trânsito no estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto da oferta global e um quarto do comércio marítimo de petróleo.
Já houve relatos de interrupção de trânsito e danos a navios comerciais na região. Se o bloqueio durar poucos dias, os estoques globais absorvem o choque. Se durar semanas, o impacto pode incluir preços mais altos e persistentes, e risco de escassez pontual de petróleo e derivados em algumas regiões.
O Brasil é exportador líquido de petróleo, mas importador líquido de derivados, como diesel e GLP. Derivativos podem ficar mais caros se o fluxo na região seguir comprometido.
A Petrobras pode “segurar” parte da volatilidade de preços, mas se o choque for prolongado, será difícil não acompanhar a referência internacional, segundo analistas.
Um petróleo mais caro aumenta a arrecadação do governo brasileiro. Produtoras independentes, como PRIO, Brava Energia e PetroReconcavo, podem ser beneficiadas.
Inflação, juros e EUA
Maria Irene Jordão analisou os impactos macroeconômicos globais. Um choque prolongado no petróleo eleva a inflação, principalmente por meio dos combustíveis. A alta de preços globais impacta gasolina e derivados nos EUA.
Um novo choque de oferta via petróleo dificulta um ciclo de cortes de juros agressivo pelo Federal Reserve em 2026. A Europa, o Reino Unido e outros países importadores de energia podem sentir mais o impacto inflacionário.
Já havia um movimento de “rotação” de recursos para fora dos EUA. O conflito pode intensificar esse movimento, mas não é novo para os mercados.
O ataque e as retaliações a bases de aliados dos EUA reforçam o debate sobre aumento de gastos com defesa em diversos países.
Ouro como proteção
Irene e Ferreira destacam o ouro como ativo de proteção, beneficiado pelo questionamento parcial sobre o papel dos EUA e pelo aumento das incertezas geopolíticas e inflacionárias. Em 12 meses, o ouro subiu fortemente em dólar; em 5 anos, mais do que triplicou.
A XP recomenda exposição moderada ao ouro, reconhecendo seu papel de diversificação e proteção.
Impactos para o Brasil
Para o Brasil, Fernando Ferreira destacou um cenário ambíguo. O petróleo tem peso relevante no Ibovespa e no ETF de Brasil listado fora do país.
O Brasil produz perto de 4 milhões de barris/dia, e o petróleo está entre os principais itens da pauta de exportações. A XP estima que cada US$ 10 de alta no barril melhora a arrecadação fiscal brasileira.
Um petróleo mais caro e por mais tempo pode pressionar a inflação doméstica. O mercado precifica algo como 300 pontos-base de cortes na Selic ao longo do ano, e um choque de petróleo sustentado poderia alterar essa trajetória.
A B3 tem “tudo o que o investidor quer”, segundo Ferreira: baixa exposição a setores expostos à inteligência artificial, peso elevado em bancos, elétricas e commodities. O mercado brasileiro ainda é visto como descontado em relação a outras bolsas globais.
China, Ásia e mercado de gás
Régis e Irene também abordaram os efeitos sobre a China e o mercado de gás.
A China é o maior importador de petróleo do mundo e principal compradora de barris sancionados do Irã, Venezuela e Rússia. Um petróleo mais caro tende a prejudicar a economia chinesa.
No gás natural, o Catar, grande exportador de GNL, também utiliza o estreito de Ormuz, o que leva o choque ao mercado global de gás. Países asiáticos e a América Latina podem ser afetados via preços mais altos de GNL.
Encerrando a transmissão, Ferreira respondeu como o investidor deve agir.
A recomendação é manter uma carteira diversificada, focar em ativos de qualidade e horizonte de longo prazo.
O choque atual aumenta a incerteza de curto prazo, mas se insere em uma tendência maior de reprecificação de risco geopolítico e mudança na ordem global.