O lançamento do Tesouro Reserva, um novo título público, pode alterar a dinâmica competitiva para grandes bancos. O produto oferece rendimento de 100% da Selic, liquidez 24 horas via Pix e permite aplicação a partir de R$ 1.
O Tesouro Reserva retira dos grandes bancos a vantagem de oferecer liquidez imediata com retorno próximo ao CDI sem concorrência direta de um produto soberano. Especialistas e executivos do setor avaliam que, para manter a atratividade de seus CDBs, grandes bancos podem precisar elevar as taxas pagas aos investidores. Este custo pode ser repassado nos juros dos empréstimos.
Dados da Anbima de dezembro do ano passado indicam que o varejo movimentou R$ 633 bilhões em CDBs e RDBs, enquanto a alta renda registrou R$ 556 bilhões. O Banco Central aponta um total de R$ 3,6 trilhões em depósitos a prazo. Mais de 90% dos CDBs de grandes bancos incluem cláusula de resgate antecipado. R$ 309 bilhões em depósitos à vista também podem ser direcionados para o Tesouro Reserva.
Perspectivas do Mercado
André Matos, CEO da MA7 Negócios, avalia que o Tesouro Reserva pode aumentar o custo de captação de grandes bancos. Ele sugere que, em caso de sucesso do produto, os bancos poderiam precisar oferecer 105% ou 110% do CDI, ou outros atrativos. Um diretor de banco de médio porte concorda com um impacto e aponta que custos adicionais podem ser repassados nas taxas de empréstimos.
Eduardo Marocke, head de fundos e renda fixa da Faz Capital, considera a pressão existente. No entanto, ele ressalta que grandes bancos já oferecem produtos com liquidez diária e rendimento próximo de 100% do CDI. Marocke pondera que o Tesouro Reserva está em fase piloto e com acesso restrito.
Luigi Wis, especialista em investimentos da Genial Investimentos, acredita que os CDBs de grandes bancos não serão afetados de forma significativa, já que muitos remuneram em 100% do CDI. Ele observa que um CDB DI que pague 100% do CDI para valores acima de R$ 10 mil rende mais que o Tesouro Reserva, que tem cobrança de 0,20% de custódia a partir desse valor. Wis indica que o efeito poderia ser mais sentido por instituições que remuneram abaixo de 100% do CDI.
Concorrência com Fundos DI
Um executivo de uma instituição estrangeira projeta que os fundos DI usados para gestão de caixa terão o maior impacto. Esses fundos já apresentavam perda de competitividade devido à taxa de administração e ao come-cotas, imposto cobrado em maio e novembro. O Tesouro Reserva, em comparação, recolhe Imposto de Renda apenas no resgate. O executivo afirma que o novo produto oferece uma opção com liquidez e baixos riscos de crédito e oscilação.
Adoção do Produto
Ricardo Rocha, professor especialista em Finanças do Insper, afirma que o impacto nos bancos dependerá da compreensão e adoção do Tesouro Reserva pela população, além do interesse das instituições em sua oferta. Ele compara o Tesouro Direto, com cerca de 2 milhões de investidores ativos, à caderneta de poupança, que possui 32 milhões. Rocha cita o “efeito explicação” como uma barreira para a adoção de alguns investimentos.
A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) informou não possuir análise sobre o impacto do Tesouro Reserva. Bradesco, Itaú Unibanco e Santander Brasil não emitiram comentários.